Ação Griô

SAMBA E RAIZ AFRICANA EM PORTO ALEGRE

Arranjos e gravações de composições dos Mestres Griôs Paraquedas e Paulo Romeu

O Rio Grande do Sul é um grande centro de referência da cultura de matriz africana. Cada vez mais os aspectos da negritude gaúcha são divulgados, corrigindo um certo equívoco do senso comum na maneira como o resto do país enxerga o RS como um lugar sem negros.

O projeto «Samba e Raiz Africana em Porto Alegre — Arranjos e gravações de composições dos Mestres Griôs Paraquedas e Paulo Romeu», que resultou no CD “Ancestralidade e Gerações” vem trazer a trajetória de afirmação dos valores culturais da negritude através de dois compositores fundamentais do Odomode, junto às possibilidades de criação, gravação e distribuição de música utilizando software livre.

SAIBA MAIS NO BLOG SAMBA E RAIZ AFRICANA

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Lá Vai – O samba do Griô – Mestre Paraquedas

Mestre Paraquedas compôs um samba em homenagem a todos os griôs. O samba foi apresentado no Encontro de Pontos de Cultura da Região Sul, a Teia Regional Sul, que aconteceu em 2010, na cidade de São Francisco do Sul/SC. Confira o vídeo desenvolvido de forma colaborativa que teve a produção de Paulo Sergio Barbosa (PC) – Tuxáua /Odomode, Rodrigo da Rosa Apolinário – Casa Brasil/Tuxáua e Gilbeto Manea – Tuxáua. Mais informações no site do Pontão Ganesha de Cultura Digital.

Ação Tuxáua Rota Digital Sul- PC Barbosa

PC Barbosa – da Ação Tuxáua Rota Digital Sul – desenvolveu com o Mestre Paraquedas o primeiro clipe do Samba do Griô – Lá Vai (imagens e edição em celular)

Além dessa ação, o Ação Tuxáua Rota Digital Sul reuniu os mestres do Rio Grande do Sul em  um encontro muito positivo, na cidade de São Lourenço do Sul. saiba mais sobre o projeto clicando aqui.

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Intervenção do Mestre Paraquedas e Griô Paulo Romeu na Teia Regional Sul, 2010

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Histórias Cantadas da Infância dos Mestres Griôs

O Projeto Histórias Cantadas da Infância dos Mestres Griôs,  irá integrar Ação Griô com Projetos Ludicidade/Pontinhos de Cultura realizando atividades de musicalização infantil. O objetivo é disseminar a cultura da infância dos Mestres Griôs através da criação de músicas infantis.  O projeto terá inicialmente período de vivência com cinco Mestres Griôs do estado do RS para verificar as histórias de suas infâncias e, dali, através de reinterpretações, resgatar situações importantes para criar músicas infantis. Esses Mestres são da tradição oral, que repassam seus conhecimentos e de seus antepassados através da contação de suas histórias, e por todo o tipo de arte e manifestação cultural.

A parceria com Mestre Paraquedas

Rodrigo Prates, que faz parte do  projeto juntamente com Rodrigo da Rosa Apolinário, diz que se encantou  com o carisma do Mestre Paraquedas, que é um artista de muitas habilidades: ele pinta, canta, compõe canções maravilhosas. No projeto, a  sua infância e sua vida foram a fonte de inspiração para composições direcionadas às crianças.

Impossível não se sensibilizar com as histórias contadas e cantadas por este Mestre. Lembro quando perguntei a ele com que canções ele costumava brincar quando criança, e ele respondeu: – Se eu escutava e brincava com estas canções de roda populares infantis? Não! Eu sempre brinquei com o samba meu amigo. Desta forma, tivemos que entender o adulto que o Mestre Paraqueda se tornou para depois conseguir abstrair a criança que ele ainda carrega.

Canção para Paraquedas (Lá no Morro) – resultado das vivências

Lá no morro tinha o jogo do osso
O nosso herói era o Mandrake
E a gente brincava o carnaval
A TV ainda nem existia
O bonde circulava na cidade
Ai que saudade que isso ainda me da
Já nem sei se casei com Porto Alegre
Ou Porto Alegre que me quer de par
A música no terreiro
O meu pai era militar
Eu tocava piano na escola
E gostava muito de desenhar
Lá na minha casa tinha sol
Até quando chovia
A gente via a chuva cair lá embaixo
E na rua molhado todo mundo fica igual
E na boa molhado todo mundo fica igual

(Rodrigo Prates)

Depois de uma longa conversa com o Mestre Griô Paraquedas sobre a sua infância vivida em Porto Alegre, senti uma vontade enorme de achar um meio de fotografar o que ele estava falando. Cada verso composto para essa canção foi retirado exatamente do que ele contou a mim e ao Rodrigo Apolinário nas Vivências.

Fonte: Histórias Cantadas da Infância dos Mestres Griôs

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Ação Griô na EPA – Escola Porto Alegre

A escola parceira do Afro-Sul Odomode na Ação Griô é a EPA – Escola Porto Alegre.  É fundamental destacar a importância dessa escola pra cidade, pois ela foi criada  com o objetivo de cumprir o estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, referente a proporcionar o direito à educação às crianças e adolescentes que vivem nas ruas do Centro de Porto Alegre, socialmente excluídos da escolarização formal.

Um pouco da história da EPA

Em 1993, inicia-se a discussão sobre a construção da então chamada Escola Aberta do Centro que representou uma ampliação do Serviço de Educação de Jovens e Adultos -SEJA e em 1994  surgem trabalhos de Educação Social de Rua, coordenado pela Fundação de Assistência Social do município, contando como parceiras com a Secretaria Municipal de Educação, a Secretaria Municipal de Cultura e a Secretaria Municipal da Saúde, projeto que contribuiu muito  para integrar a abordagem de rua, construir uma metodologia própria e desencadear o processo de diagnóstico da realidade das ruas, construindo, a partir daí a proposta político pedagógica da nova escola. Finalmente, em 30 de agosto de 1995, a Escola Municipal Porto Alegre foi inaugurada, e desde lá vem contruindo um espaço que é mais que uma escola, é um lugar de acolhimento e construção de cidadania.

A EPA especializou-se no atendimento de jovens em situação de vulnerabilidade social, fazendo parte da Educação de Jovens e Adultos da SMED/PMPA, atendendo jovens a partir dos 15 anos de idade para o acesso ao Ensino Fundamental completo desde 2009. O próximo passo é a homologação pelo Conselho Municipal de Educação da alteração no seu regimento interno para transformar o que começou apenas como uma Escola Aberta em um Centro de Ensino, Pesquisa e Extensão.

As atividades do Ação Griô na Escola

As atividades desenvolvidas na escola foram de contação de história e musicalidade negra, com Mestre Paraquedas, de percussão com o Griô Paulo Romeu Deodoro e de capoeira com o Griô Educador Guto. A receptividade dos alunos foi sempre bem bacana, e a curiosidade sobre as histórias dos negros, da música e da cidade de Porto Alegre gerou um integração muito rica entre o Mestre Paraquedas e os jovens da EPA. Com o educador musical e griô Paulo Romeu a frente das oficinas de percussão, os estudantes tiveram contato com as técnicas de percussão, e conheceram os diferentes sons dos tambores, transformando a oficina em um momento de aprendizado e expressão através do som do djambé, do surdo, do pandeiro, das cubanas, fazendo bater forte também o coração. Paulo S. M. Barbosa (PC) e Iara Deodoro ficaram na articulação  das atividades pedagógicas do projeto.

MESTRE PARAQUEDAS é Eugênio Silva Alencar, nascido no dia 28/05/1937, conhecido como Mestre Paraquedas. Vive na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Muitas histórias tem pra contar sobre a cidade onde cresceu e viveu maior parte de sua vida. No livro que está organizando que se chama Clínica Geral, ele conta um pouco destas histórias. Começa assim:

Clínica Geral, não tem nem uma pretensão, de obra literária, é só o resultado, de uma reunião de escritas feitas ao longo de muito tempo.   Clínica Geral, porque aqui eu falo dos mais variados assuntos da minha Porto Alegre, pelo que vive, pelo que aprendi e pelo o que me foi passado pelos meus ancestrais. Para um afro-descendente que nasceu, cresceu e viveu toda uma vida entre os seus, muito deles que vou falar, coisas boas as vezes hilárias, porque as notícias ruins aparecem no jornal, mas todas verdadeiras.  

Eu sou uma vítima do progresso. Nasci no Alto da Bronze na rua Duque de Caxias e  me criei no Areal da Baronesa, hoje moro no Morro da Vila São José. Fui sendo empurrado pelo desenvolvimento, mas tá legal…..  Várias destas escritas, foram feitas olhando a cidade lá embaixo. Não quero nada mais do que tão poucos: saúde, um barraco e o amor de um bem querer. O que posso querer mais?

Sempre me interessei em saber as histórias do lugar onde vivo. Um pouco meu pai me passou e o resto pesquisei.

Porto Alegre nasceu de uma pequena colônia de imigrantes açorianos vindos  em  caravanas e  se  estabeleceram  onde  hoje  é  a  Cidade  de  Viamão. Em  1752  fundaram  a sesmaria de Santana que era capitaneada pelo Sr.Gerônimo de Ornellas e Vasconcellos que passa a chamar-se Porto dos Casais. Nesta época agregados as  Caravanas  Açorianas vieram os primeiros negros na qualidade de escravos braçais e servidores domésticos.

Sua vida e produção musical estão intimamente ligadas e se confundem com a trajetória da música de Porto Alegre. Em suas composições, muitas criadas para o carnaval, Paraquedas fala da cidade e da situação de exclusão de negros e pobres, pois ele também foi vítima de um processo de “limpeza social” do centro da cidade, que foi intensificado com a ditadura.

O samba enredo para a Escola de Samba Samba Puro, composto pelo Mestre Paraquedas para o carnaval de 1989, foi censurado inclusive pelo poder público. Ele diz que neste tempo ainda tinha um “restinho de repressão” pois as músicas de carnaval tinham que passar pela censura federal. Veja a seguir um trecho do texto escrito pelo Prof. Dr. Alessander Kerber onde Paraquedas fala de uma situação de indignação com o tipo de atuação da polícia e o tratamento violento nas comunidades de periferia:

“Eu tinha visto uma cena que me marcou […] Tinha o seu João e o filho dele. O seu João era um negro pedreiro. Mas ele não se metia com ninguém, era um negro que só cuidava da família […] A polícia que veio de lá, botou o seu João na parede. Aí pegaram a pastinha do Seu João, tinha uma marmita dentro […] eles faziam assim com a marmita dele [mostrando para o pé que esfregava no chão]”

Esta situação o inspirou a fazer o seguinte samba:

“[…] Vai quem deve e quem não deve também

Negro e pobre por certo é marginal

Leva em cana e caga este negro a pau, ai

Mas onde está a liberdade desta tal democracia

Leis que protegem quem tem dinheiro e mordomia

Pobre Zé, não tem direito e valor

Vive reverenciando, o muito obrigado senhor”

Neste ano, o tema da escola tinha passado pela censura, as fantasias também, mas a letra da música, não. Foi até marcada a frase que não poderia sair. Ela dizia: “Só pegando no cano [o revólver] se ganha a parada”. Paraquedas apresentou-se, então, à censura e o censor lhe perguntou: “Seu Eugênio, o senhor é anarquista?” Paraquedas lhe respondeu que dependia do que ele considerava anarquismo. O censor retrucou que, pela sua leitura, a música incentivava as pessoas a pegarem em armas. Mestre Paraquedas então fez outro samba enredo para a Escola, também crítico à exclusão social mas dessa vez sem as expressões que, no outro samba, haviam sido censuradas. A música “É morro, é favela, é gueto, é quilombo” foi a grande vencedora do Carnaval de Porto Alegre no ano de 1989.

“No dia que o doutor compreender
Que quem vive lá no Morro
também tem direito a viver
Viver com dignidade, sem opressão sem maldade
Então tudo vai mudar, vai mudar
Eu vou ser tratado como gente por aí
Vou ter casa, comida e um trabalho onde ir
As crianças todo o dia irão à escola estudar
E a velhice quer a condição de descansar, olhe bem
Enquanto este dia não vem
Sou o canto sou a luta sou a voz de quem não tem
É morro, é favela, é gueto é quilombo
É samba é quizomba meu povo”

Mestre Paraquedas ganhou este apelido por ter sido paraquedista do exército.

Hoje ele faz parte do Projeto Ação Griô do Ministério da Cultura, que valoriza as memórias dos nossos mestres da cultura popular e busca levar  pra dentro das escolas a riqueza de suas histórias e conhecimentos. A EPA é parceira do Afro-Sul Odomode neste projeto.

O nome do projeto “Ação Griô” é inspirado na cultura africana onde os contadores de histórias e os artistas são chamados de griots. Narrando as  histórias, cantando e dançando, eles ajudam a passar de geração a geração as tradições de seus povos. 

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Mestre Paraquedas na Trilha do Documentário o Grande Tambor, do Coletivo Catarse

Mestre Paraquedas com os músicos Paulo Romeu, Wado, Lucas Kinoshita, Cal  no Ponto de Cultura Odomode, onde se encontraram com a missão de harmonizar a música que integra a trilha do documentário o Grande Tambor.

VEJA O DOCUMENTÁRIO O GRANDE TAMBOR

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